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Patrimônio Histórico e Cultural de Lençois

  • Foto do escritor: Casa de Salim
    Casa de Salim
  • 23 de mai.
  • 7 min de leitura

Atualizado: 26 de mai.


A exploração de diamantes na Serra do Sincorá legou a Lençóis um rico patrimônio arquitetônico e cultural, hoje reconhecido pelas ações de tombamento do IPHAN.

O centro histórico foi tombado como patrimônio nacional em 1973. Da baixada do vale do rio

Lençóis, que a margeia e atravessa, a cidade vai subindo as ladeiras entremeada de praças,

alamedas, ruas e becos, calçados com paralelepípedos e pedras irregulares. Na margem

esquerda do rio, a balaustrada branca contorna toda a Av. Senhor do Passos. As duas margens são unidas pela ponte de pedras em arcos, construída em 1860, que já resistiu a inúmeras enchentes causadas por trombas d’água. Junto à ponte, a paisagem urbana é dominada pelo Mercado, grande edificação de pedra com portais em arco, hoje utilizado para atividades culturais e sociais.


Dos pontos mais altos da cidade avistam-se os telhados coloniais dos 570 imóveis situados no centro histórico. Os casarões em estilo colonial, de um ou dois pavimentos, foram construídos em adobe, pedra e paredes de enchimento. As fachadas são coloridas, de modo geral não têm recuo e muitas possuem platibandas decoradas com flores, anjos, estatuetas e outros ornamentos. As portas e janelas pintadas em cores fortes, sempre em madeira, podem ser em arco ou retas. Abundam os muxarabis – treliças de origem árabe, que resfriam o ambiente interno ao mesmo tempo em que permitem apreciar o exterior sem ser observado.


A cidade possui duas igrejas católicas do século XIX: Senhor dos Passos e Nossa Senhora do Rosário. Da garimpagem manual de diamantes na Serra do Sincorá, restaram muitos remanescentes do trabalho dos garimpeiros. São visíveis os canais de água, cobertos ou não de pedra, hoje totalmente secos; barragens; “canoas” (canais de água em forma de “escadas”, com patamares longos e estreitos de pedra com uma depressão, onde se depositava o cascalho fino com potencial de conter diamantes); pequenas pontes; montões de cascalho resultado do desmonte do solo. Há também resquícios de casas isoladas e de vilas que outrora foram fervilhantes de atividade humana.


Em 2025, o IPHAN também promoveu o tombamento do Terreiro de Jarê Palácio de Ogum e Caboclo Sete-Serra, em Lençóis, como patrimônio cultural. O Jarê é uma prática religiosa de origem africana, com influência indígena, católica e kardecista, surgida no século XIX em

Lençóis e Andaraí. Exclusivo da Chapada Diamantina, o Jarê inclui o culto aos orixás, caboclos (espíritos ameríndios) e santos, bem como atividades curandeiras. O Palácio de Ogum é o terreiro de Jarê mais antigo ainda em atividade, fundado em 1949.


A Festa de Senhor dos Passos é a principal festa popular da região e ocorre desde o século XIX, entre 23 de janeiro e 2 de fevereiro. De cunho religioso e cultural, é presidida pela Sociedade União dos Mineiros e homenageia Senhor dos Passos – o padroeiro dos garimpeiros – cuja imagem foi trazida de Portugal e chegou a Lençóis em 1852, carregada nos ombros dos garimpeiros do Porto do Santo Antônio até a cidade. A festa foi tombada em 2018 como patrimônio cultural imaterial pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC). Está em análise o processo de seu tombamento como patrimônio nacional pelo IPHAN. Começa com a lavagem da escadaria da Igreja pelas baianas, na tarde do dia 23 de janeiro. Diariamente, ocorrem as alvoradas com queima de fogos e missas noturnas. No dia 1º de fevereiro ocorre a Alvorada dos Garimpeiros, quando a população percorre as ruas da cidade portando bandeirinhas de papel seda, ao som da Phylarmônica Lyra Popular e das cantorias da Marujada e do Terno de Reis. A Phylarmônica toca o tradicional Hino aos Garimpeiros, escrito em 1924, em Mato Grosso, e trazido para Lençóis em 1926. A festa se encerra com a missa campal e a procissão de Senhor dos Passos. Nos fins de semana, à parte das atividades tradicionais, ocorrem shows noturnos de cantores populares.


A Lyra – “alma cantante de Lençóis” – é uma banda de música centenária, criada em 1898.

Uma banda filarmônica é uma orquestra de sopros e percussão de origem comunitária. Em

geral, reúne músicos amadores, embora muitos possam se profissionalizar. A Lyra tem uma

escola de música dirigida por seu maestro, Washington Sueira. Os ensaios ocorrem

regularmente às quintas-feiras, às 19h, em seu prédio próprio, aberto ao público. Ela se

apresenta em todas as festas populares de Lençóis, com seus trajes de gala.


A Marujada é uma manifestação folclórica de origem portuguesa, que chegou a Lençóis no

início do século XX. Os integrantes, vestidos de marinheiros, seguem o Mestre pelas ruas

cantando e dançando e encenando um episódio náutico.


Também são muito tradicionais em Lençóis os reisados. Com vestes e chapéus multicoloridos, os ternos de reis participam de todas as festas populares, tocando e cantando, além das tradicionais visitas às casas no Dia de Reis (6 de janeiro). O São João é outra festa tradicional em Lençóis, quando o centro histórico é ricamente decorado com bandeirinhas e ornamentos coloridos. Há extensa programação de sanfoneiros,

quadrilhas e bandas populares na semana do 24 de junho.


Lençóis possui três museus. A Casa e Memorial Afrânio Peixoto registra a vida e a obra de

Afrânio Peixoto, médico, escritor, professor, ensaísta, historiador e deputado federal lençoense. O Memorial foi instituído em 1970 e possui um auditório, onde são realizados eventos culturais e palestras. Endereço: Rua Armando Pereira, junto à Igreja do Rosário. Horário de funcionamento: seg a sexta, 8h às 17h; sáb 8h às 12h.


O Memorial do Garimpeiro conta a história do garimpo em Lençóis e o modo de vida dos garimpeiros. Instalado na sede da Sociedade União dos Mineiros, reúne os diversos objetos relativos ao garimpo, como os instrumentos manuais utilizados para a garimpagem e as roupas dos garimpeiros. O Memorial recebeu, em 2025, uma réplica do “Carbonado do Sérgio”, o maior diamante negro já encontrado no mundo, com 3.167 quilates. Sérgio Borges de Carvalho foi o garimpeiro que o achou, em 1895, no garimpo Brejo da Lama, em Lençóis. O diamante foi dividido, para uso industrial, mas antes foram feitas duas réplicas, uma das quais foi para Paris. A réplica do Memorial do Garimpeiro foi doada pelo Prof. Francois Farges, do Museu Nacional de História Natural em Paris. Endereço: Av. Sete de Setembro, 21. Horário de funcionamento: verificar no local.


O Museu Sincorá conta a história geológica da Serra do Sincorá e de sua influência sobre o

desenvolvimento humano na região, por meio de painéis expositores, exemplares de rochas e objetos históricos. O Museu promove atividades didáticas e eventos culturais.

Endereço: Av. Rui Barbosa, 47. Horário de funcionamento: terça a domingo, 9h às 12h e 16h às 20h.


A tradicional culinária lençoense reflete a riqueza dos produtos e hábitos do sertão nordestino, mas com diversas especificidades trazidas pela cultura garimpeira. Verduras e frutas são vendidas na feira local, que ocorre regularmente no domingo à tarde e na manhã de segunda na Av. Senhor dos Passos. Os produtos são oriundos de inúmeras regiões da Bahia. O café da manhã é farto, com cuscuz com ovo, beiju com coco ou manteiga, banana da terra frita ou cozida e tubérculos cozidos (batata doce e inhame). Em tempos antigos, os garimpeiros, antes de sair no alvorecer para o trabalho, comiam feijão com carne e farinha. Um prato típico dos garimpeiros é a farofa com carne frita e temperos verdes. Uma refeição tradicional é nutritiva mas bastante leve. Inclui feijão, especialmente feijão de corda e feijão verde, arroz, farinha, carne de sol e cortadinhos de legumes (abóbora, chuchu, maxixe, quiabo etc.). Um preparado comum é o cortadinho de palma, cacto muito cultivado no Nordeste. O godó de banana é um refogado de banana da terra verde picada com carne de sol. Também não poderiam faltar as típicas comidas “baianas” de origem africana, como vatapá, acarajé e caruru, que, nas antigas festas, eram acompanhados de carnes assadas e arroz.


Em tempos antigos, as mulheres tinham o “dia do forno”, destinado ao preparo das quitandas a serem servidas às visitas da tarde – inúmeras variedades de bolos, doces e biscoitos. Uma delas é o avoador, biscoito de polvilho em bolinhas, muito leve, comumente encontrado na feira semanal. O joaquim teodoro é outro biscoito também de polvilho e em bolinhas, mas com açúcar e leite de coco, que derrete na boca.


Hoje Lençóis tornou-se um polo gastronômico regional, em que, às iguarias regionais,

acrescenta-se a comida internacional. À noite, as ruas do centro histórico fervilham

alegremente com os restaurantes cheios.


É extensa a literatura técnica e ou de ficção, sobre Lençóis e a Chapada Diamantina. O principal escritor é Afrânio Peixoto (1876 – 1947), membro da Academia Brasileira de Letras e da Academia Brasileira de Filologia. Afrânio escreveu mais de 30 obras, das quais a mais conhecida é “Bugrinha”, romance ambientado em Lençóis, na época dos garimpos, e transformado no filme “Diamante Bruto”, de Orlando Senna.


Orlando Senna é diretor de cinema, roteirista e escritor. Nasceu em Lençóis em 1940. Realizou mais de trinta filmes, dos quais destacam-se “Iracema, uma transa amazônica” (1974), “Gitirana” (1976) e “Diamante Bruto” (1977).


Herberto Sales (1917 – 1999) nasceu em Andaraí, município vizinho a Lençóis. Foi escritor e

jornalista e membro da Academia Brasileira de Letras. Escreveu 33 livros de romance, contos, memórias e obras infanto-juvenis. Seu principal romance é “Cascalho”, ambientado nos garimpos de Andaraí.


Walfrido Moraes (1916 – 2004) nasceu em Lençóis e foi escritor, professor e jornalista.

Escreveu para diversos jornais baianos e foi membro da Academia de Letras da Bahia. Sua

principal obra, “Jagunços e Heróis” (1963), narra os tempos do coronelismo na Chapada

Diamantina.


Urbano Duarte (1855 – 1902) nasceu em Lençóis e foi militar, jornalista, cronista, teatrólogo e humorista. Foi um dos maiores cronistas de humor na imprensa do Rio de Janeiro em sua época. Sua obra foi publicada em revistas e artigos. Foi fundador da cadeira nº 12 da Academia Brasileira de Letras.


Nadir Ganem (1920 – 1996), advogado, professor da Universidade Estadual de Londrina e

escritor, nasceu em Andaraí e viveu sua infância e parte da juventude em Lençóis. Publicou

inúmeras crônicas e ensaios em jornais da Bahia e do Paraná. Sua principal obra é “Lençóis de Outras Eras” volumes I e II, publicados respectivamente em 1984 e 2001 (post mortem).


Nildeia Andrade nasceu em Lençóis, em 1932. É poetisa, professora da Universidade Federal da Bahia e artista plástica. Sua principal obra é “Lavramor”, coletânea de poesias publicada em 1982.


Delmar Alves de Araújo nasceu em Lençóis e é escritor, cientista ambiental, pedagogo,

antropólogo e diretor e roteirista de cinema. Dentre suas obras destacam-se o livro de ficção “As Bazu” (2023), que narra a vida de mulheres pretas descendentes nagôs de Lençóis; o filme "Jardim de Plástico" (2008), premiado no Projeto Nacional de Cinema Revelando os Brasis, promovido pelo MINC e pela PETROBRÁS; e a pesquisa sobre a gastronomia Lençoense, publicada no livro “Chapada Diamantina: culinária e história”, o qual recebeu o Internacional Gourmand World Cookbooks Awards em 2013, na categoria de melhor livro de culinária regional do Brasil.


 
 

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